A proporção de idosos no Brasil quase dobrou nas últimas duas décadas, passando de 8,7% para 15,6% da população, segundo dados do IBGE divulgados em 2024. A estimativa é de que, até 2070, cerca de 38% dos brasileiros terão mais de 60 anos. O envelhecimento populacional impõe desafios crescentes à sociedade e, em especial, ao mundo do trabalho.
O tema esteve em pauta no CONCARH (Congresso Catarinense sobre Gestão de Pessoas), promovido pela Associação Brasileira de Recursos Humanos de Santa Catarina (ABRH-SC), que ocorre até esta sexta-feira (11), no CentroSul, em Florianópolis.
Especialistas de destaque participaram do evento, compartilhando tendências e promovendo reflexões com os profissionais de recursos humanos. Um deles foi Alexandre Kalache, referência internacional em longevidade, com quatro décadas dedicadas ao tema. Codiretor do Age-Friendly Institute, Kalache comandou por 14 anos o Programa Global de Envelhecimento e Saúde da OMS.


“Quando você acha que vai morrer? Do que acha que vai morrer? Onde acha que vai morrer?”. Foi com essas perguntas provocadoras que o médico gerontólogo deu início à sua palestra. Ele destacou que o Brasil vive uma nova realidade: mais pessoas alcançam a velhice, mas com maior incidência de doenças que demandam cuidados contínuos, e com o fim da vida cada vez mais institucionalizado — em hospitais ou instituições de longa permanência.
Para o especialista, “trouxemos mais anos à vida. O grande desafio do século XXI é trazer mais vida aos anos”. Esse é um desafio ainda maior para o Brasil, analisa. Diferentemente de outras nações que envelheceram, como algumas da Europa, o Brasil ficou velho antes de ficar rico. Há deficiências de políticas públicas, que começam desde a formação de profissionais de saúde – dados recentes apontam para um déficit de 28 mil geriatras.
Aos 79 anos, Alexandre reforçou que se define como velho. “No Brasil, idoso é sempre o outro e isso diz muito. Por isso me apresento como velho”. Sem meias palavras, disse ainda: “Envelhecer é bom, morrer cedo é que não presta”.
Impactos nas empresas
Outro convidado do congresso, Willians Fiori, professor do Hospital Israelita Albert Einstein, defendeu que não é possível mais pensar em um modelo de contratação da década de 80. A sugestão do também palestrante do CONCARH é que as equipes de recursos humanos olhem para a demografia local.
Willians é um dos autores do livro Diversa-idade, que propõe uma abordagem voltada à valorização de equipes compostas por diferentes faixas etárias. Para ele, as áreas de RH devem considerar não apenas o envelhecimento dos colaboradores, mas também de suas famílias, como nos casos de funcionárias que acumulam o papel de cuidadoras.
Alexandre Kalache complementou a discussão ao destacar que o capital humano é o recurso mais importante das organizações — e ele está envelhecendo. Para ilustrar, usou uma analogia: “Ninguém quer deixar a empresa lenta. A ideia é que possa acelerar com segurança – e esta segurança vem da experiência”.






