
Na rede pública o SUS dispõe dos programas de Estratégia de Saúde da Família (ESF), com a presença de equipes multidisciplinares, entre elas o médico, dotado de conhecimento técnico para fazer o diagnóstico e orientar o tratamento aos seus pacientes. Os tratamentos poderão envolver prescrição de medicamentos, sessões de fisioterapia ou cirurgia, que deve ser indicada após avaliação de médicos especialistas.
No ano passado, segundo dados do Ministério da Previdência Social, foram registrados 4 milhões de afastamentos do trabalho por doença. A dorsalgia, que é a dor nas costas, foi a principal causa de licenças com 237.113 pedidos concedidos, tendo em segundo lugar os outros transtornos de discos intervertebrais, como a hérnia de disco, responsáveis por 208.727 afastamentos. Essas patologias podem ter relação com as chamadas Lesões por Esforços Repetitivos – LERs, que atualmente os profissionais da saúde utilizam o termo Dirtúrbios Osteomusculares Relacionados ao Trabalho – DORT. Em Santa Catarina, dados do CEREST apontam a necessidade contínua de monitorar as LER/DORT, que são síndromes inflamatórias causadas no trabalho, como as tendinites e as lombalgias.
O médico especialista em Medicina do Trabalho Daniel Basegio, pós-graduado em ergonomia, explica que o termo “Lesões por Esforços Repetitivos” não contempla a definição mais adequada para caracterizar as inúmeras doenças musculoesqueléticas inflamatórias relacionadas ao termo, pois nem sempre uma lesão ou um sintoma doloroso será causado por esforço repetitivo, que é um conceito originário da ergonomia. “Nem tudo pode estar relacionado a esforço ou a repetitividade, pois o trabalhador poderá desencadear uma determinada lesão através de um único movimento incorreto, não estando a repetitividade necessariamente envolvida. Por isso, tem se adotado um termo mais moderno e abrangente que seria a sigla: DORT”, explica o especialista, membro da Associação Brusquense de Medicina – ABM.
As DORTs – Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao Trabalho -, são um conjunto de doenças inflamatórias, como as tendinites, lombalgias, entre outras; que afetam músculos, nervos, tendões e articulações, podendo ser causadas por movimentos repetitivos, esforço intenso, posturas inadequadas ou vibração no ambiente de trabalho. Substituiu o termo LER por ser mais abrangente e determina que tais distúrbios estão relacionados especificamente com o exercício do trabalho. É um termo que já se consagrou a nível previdenciário, judiciário e nas organizações de trabalho, pois relaciona com a atividade laboral de cada indivíduo.

CAUSAS
Conforme o médico Daniel Basegio, as causas de LER/DORT são multifatoriais, podendo estar relacionadas a movimentos repetitivos e ao ambiente onde o trabalhador atua. “Existem várias questões que são avaliadas na área de ergonomia, como o layout do ambiente de trabalho, a disposição das máquinas e as posições dos mobiliários, além da postura que é adquirida pelo trabalhador. Neste caso, entram no contexto outros fatores como a jornada de trabalho excessiva, organização do trabalho, falta de pausas, fatores psicossociais bem como as questões individuais e a estrutura física do trabalhador. A questão de condicionamento e a influência do estresse, além dos fatores pessoais, também podem influenciar”, descreve o médico.
Vale destacar que, muitos destes casos tiveram aumento durante a pandemia, segundo pesquisas realizadas. Os estudos mostraram que quando as pessoas atuavam dentro das empresas, existiam condições ergonômicas mais adequadas em relação a disposição de mobiliários, altura do monitor, posição de teclado, mouse e a própria cadeira com os seus devidos ajustes de altura e encosto lombar. A partir do momento em que os trabalhadores foram deslocados para a suas residências, não foram todos que tiveram a possibilidade de exercer a atividade dentro de um ambiente apropriado. Isso gerou um aumento de casos naquela época”, completa.
TRATAMENTOS
Em relação ao tratamento para as LER/DORT, o médico alerta que é fundamental se chegar a um diagnóstico preciso para propor os cuidados adequados. Inicialmente, são usados medicamentos, como anti-inflamatórios e analgésicos para tratar os sintomas. Além disso, se faz necessário o apoio de equipes de outros profissionais da área como fisioterapeutas e terapeutas ocupacionais, não apenas para tratar, mas também auxiliar na reabilitação. Porém, existe uma minoria de casos que acaba evoluindo para a cirurgia. “A melhora das condições ergonômicas dos postos de trabalho são fundamentais para que, a partir do momento em que o trabalhador estiver tratado e em condições de retornar para seu exercício profissional, não volte a se expor às mesmas situações que causaram o problema”, alerta Basegio.
Na rede pública, o SUS possui os programas estratégia de saúde da família, onde existem equipes multidisciplinares, entre elas o médico, que tem conhecimento técnico para fazer o diagnóstico do paciente. Se o diagnóstico for confirmado, o SUS vai disponibilizar medicamentos e fisioterapia, além do apoio de um especialista da área da ortopedia. “A solicitação de exames complementares utilizados para fazer o diagnóstico conta com o apoio do SUS que tem uma rede de profissionais para isso, algumas vezes com maior ou menor facilidade, dependendo da estrutura do município. O importante é lembrar que a rede pública tem condições para fazer esse tipo de tratamento”, esclarece o médico.
PREVENÇÃO
O médico Daniel Basegio, lembra ainda que, “em situações de causas multifatoriais, é necessário pensar em prevenção com atuação em várias frentes e, neste caso, o estímulo a prática de atividades físicas é fundamental. Qualquer indivíduo melhor condicionado, com fortalecimento muscular e alongamento adequado, terá menor chance de se lesionar; seja no trabalho, na vida diária ou no esporte”.
De acordo com o médico, é muito importante as atuações dentro do ambiente de trabalho, sendo que os serviços de saúde, medicina e segurança do trabalho precisam ter autonomia para agir. “As equipes de ergonomia e segurança precisam ter amparo das empresas para poder agir nos postos de trabalho implementando medidas de melhoria nas correções posturais, implantação de pausas, rodízios de tarefas ou na adequação da disposição de máquinas e mobiliários. Outra medida muito utilizada é a ginástica laboral, onde profissionais realizam exercícios com os trabalhadores durante a jornada de trabalho para poder produzir melhores resultados. O trabalho deve ser em equipe, não adianta apenas focar no indivíduo, sendo necessário abordagens junto às questões de organização do trabalho que são fundamentais para que se possa fazer uma prevenção adequada”, alerta o especialista.







